terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Crítica: "O Gebo e a Sombra"

Título original: Gebo et l'Ombre
Portugal/França, 2012, 95 min.
Direção: Manoel de Oliveira
Roteiro: Manoel de Oliveira (baseado na peça O Gebo e a Sombra, de Raul Brandão)
Elenco: Michael Lonsdale, Claudia Cardinale, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa, Jeanne Moreau, Luís Miguel Cintra




por Gabriel George Martins

Um espectro ronda a Europa: e não, não é o espectro do comunismo. Comunismo, que hoje, já muito difamado e debilitado, não constitui real ameaça às economias neoliberais. Não. O espectro é o do próprio capitalismo. O espectro de um sistema que teve de se reinventar constantemente, sem se conhecer em sua plenitude. Sistema autofágico, negligente em muitos campos — em especial, nos sociais —, esquecido de que sua maior fonte de renda seria também sua tragédia. Instituições seculares, detentoras do capital mundial por muitos e muitos anos, agora veem em economias ascendentes, como a China, seu maior algoz, enquanto prosseguem cavando em suas próprias estruturas internas o seu revés.

O capitalismo, assentado não só numa prática econômica, mas em filosofias de vida e iniciativas morais e políticas, pena para se reerguer, como fizera antes. Mas, em um mundo no qual o bizarro termo "socialismo de mercado" parece tão em voga, o renascimento soa fadado ao fracasso. Com isso, todos os valores praticíssimos defendidos pelos velhos senhores do capital, e impostos à sua massa comandada, parecem ruir à medida que a realidade se modifica. Ainda não sabemos se para a melhor ou para a pior — coisas "boas" vêm, coisas "más" também. Bem se assemelha esse espectro a uma sombra, disforme e irresoluta, ambígua.

A sombra de João (Trêpa) incomoda Gebo (Lonsdale). Velho e cansado, ele trabalha como contador para sustentar a esposa, Doroteia (Cardinale), e a nora, Sofia (Silveira). A primeira vive aguardando o retorno de seu filho, que fugiu há muito. Sofia, mais contida, sustenta uma espera surda e muda pelo marido, enquanto ocupa a lacuna deixada pelo filho na vida do pai. A incompleta família recebe com frequência a visita de seus vizinhos, Chamiço (Cintra), um fracassado teatrólogo, e Candidinha (Moreau), que passeia pelas casas fazendo visitas e bordando. Uma rotina irretocável. Tudo o que Gebo menos poderia esperar, no entanto, é que o retorno de João tornaria sua sombra tão presente e ameaçadora no cotidiano familiar.

Embora crie uma certa simpatia entre suas personagens — todas muito frágeis e desiludidas — e o público, Manoel de Oliveira não hesita em desmascarar a vida programática de Gebo e dos outros. Faz isso aos poucos, primeiro a partir da mostra de seu dia-a-dia. Depois, com a chegada de João, usa o novo elemento como juiz nas ações e motivações de suas peças. Mas nada nem ninguém sai livre de acusação, e o próprio juiz se torna alvo de sua sombra.

A sombra da ambição, que persegue João, não é a mesma sombra do comodismo, caçadora de Gebo. Ambos possuem seus aliados nas bases familiares — assim como Doroteia parece se alinhar a João, Sofia se coloca mais ao lado de Gebo. Mas mesmo isso é ameaçado pelas circuntâncias. O confronto entre pai e filho, apesar de parecer inevitável, é sempre evitado, pois o choque entre as duas pode produzir mágoas ainda mais profundas nos corações de cada um. As sombras, afinal, terminam por se fundir, numa imensa escuridão que a todos recobre. Não é difícil perceber que, tendo suas distrações — Gebo, os números; Sofia, o servilismo; Chamiço, o teatro; Candidinha, os bordados e as visitas — como forma de encarar (suportar) a dura realidade, nenhuma personagem esteja livre de anseios mais complexos. Anseios secretos. Todos têm mais ou menos a ver com a saída de sua condição miserável.

A escuridão, enorme sombra que é, é a sombra mesma do capitalismo. Ou, mais intimamente, do capital, seja em ideia (as contas no livro de Gebo) ou em presença (a maleta de dinheiro). E, como o capital imprimisse em seus manipulados uma visão ora simplória, ora radical das coisas do mundo, não sobra um só ileso às suas exigências. Chamiço faz de seu comentário político um elogio ao marquês de Pombal, enquanto João vê nos criminosos a sinceridade que não vê na família. Um prefere se ater a personas violentas para se abster de manifestar sua própria temeridade; o outro defende a admissão da violência e do crime, algo intrínseco e inegável à natureza humana. São reações díspares, mas acondicionadas pela noção de dinheiro, de posse, de propriedade.

O capital também aspira à internacionalização. O capital corre, de nação em nação, rompendo altas barreiras, como a língua. A simplicidade de Gebo não pode nem se deixar levar por isso, mas a sagacidade de Oliveira não o permite escapar, e, não obstante os nomes portugueses das personagens, o longa é falado todo em francês. O deslocamento não poderia cair mais fascinante, num elenco composto de atores portugueses (Trêpa, Silveira e Cintra), e franceses (Lonsdale e Moreau), além da italiana Cardinale. O projeto multinacional contrasta com o anacronismo de obras recentes de Oliveira. Singularidades de uma Rapariga Loura se passa nos dias atuais, mas tem cara e corpo de filme de época — e O Estranho Caso de Angélica toma lugar na década de 50, mas tem ares contemporâneos. Com efeito, o cineasta adora afastamentos, temporais ou espaciais.

Não obstante, a união de nacionalidades não vai a lugar algum dentro do limitadíssimo cenário. Passando-se quase em sua totalidade na sala da casa de Gebo, o longa permite a seus intérpretes liberdade reduzida de movimentos. Lonsdale passa a enorme parte do tempo sentado — conferindo à sua personagem o cansaço de que ela reclama. A atuação de Lonsdale é essencialmente verbal, mas os gestos e as expressões de esgotamento lhe arrancam um desempenho bastante satisfatório. Mesmo sentado.

A película inteira, entretanto, se baseia no gesto e na palavra, numa representação para lá de teatral. Os longos planos fixos colaboram para essa sensação de se estar assistindo a uma peça. A promiscuidade do filme com sua fonte de inspiração — o drama homônimo do escritor português Raul Brandão —, porém, não se espalha. O longa foge ao teatro filmado não somente pelo milagre da edição, mas por ser puramente cinematográfico. A dinâmica entre luz e sombras não poderia ser mais apropriada a uma arte cujos primórdios remontam à dicotomia. O ambiente da casa, imerso numa mórbida escuridão, só se ilumina um bocadinho com as velas. A chuva ininterrupta do lado de fora ainda é responsável por sequestrar o sol, a luz natural, e imergir a residência numa absurda escuridão. É raro quando a sala parece mais iluminada, e as personagens não hesitam em externar isso, com um mínimo de contentamento por (mal) poderem fugir às sombras que as perseguem.

Essas pessoas não conseguem enxergar em meio às sombras. As vicissitudes não lhes permite isso, e nem eles estão acostumados a ver senão por meios artificiais. Quando Gebo, em um assomo de coragem, exclama — "Eu quero ver!" —, e o faz tirando os óculos do rosto, parece-nos uma ironia, um discreto toque de comicidade num momento decisivo. Mas, na voz de Gebo, ou Lonsdale (este é a sombra daquele, e vice-versa), soa como o acolhimento final de sua própria mágoa. Mágoa proveniente de uma vida inteira dedicada ao dever. Que dever? O dever para com o dinheiro alheio. A mágoa é a visão; visão de uma realidade na qual muitos viveram — e vivem. Mágoa de terem suas vidas controladas, direta ou indiretamente, por um sistema. E na falência desse sistema, nada receberem pelos "serviços prestados", nem um pedido de desculpas pelos transtornos causados.

O Gebo e a Sombra é uma fábula do século XIX para problemas do século XXI. Trocamos a posição de um X e de um I, mas nada alteramos na forma como as coisas se deram nesses tempos. É verdade, a ordem de alguns fatores foi alterada, mas o produto ainda é o mesmo, porque o capitalismo se reinventou. E agora, que sua verve renovadora se esvai, como tudo fica? Fica em sombras. Sombras para todos. Talvez não nos tenhamos dado conta plenamente das causas disso tudo, desses problemas. Mas conhecemos as consequências; com alguma sorte, um dia encontraremos luz.

Nota: 9/10

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